Arquivos
 30/03/2008 a 05/04/2008
 25/02/2007 a 03/03/2007
 15/10/2006 a 21/10/2006
 10/09/2006 a 16/09/2006
 03/09/2006 a 09/09/2006
 06/08/2006 a 12/08/2006
 09/07/2006 a 15/07/2006
 28/05/2006 a 03/06/2006
 07/05/2006 a 13/05/2006
 23/04/2006 a 29/04/2006
 02/04/2006 a 08/04/2006
 26/03/2006 a 01/04/2006

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




vassallu
 


Fabula est mundus - por Benedito Nunes

As fábulas (mitos inativos em verso ou prosa), já parte do que se chama de literatura, pendem para a narrativa oral. Em geral, elas desterritorializam as personagens, colocando-as no tempo mítico e no espaço legendário que pairam acima dos territórios e das épocas. As fábulas não são de tempo e lugar algum. Elas jogam, brincam com o tempo e com o espaço. E já estão fazendo tal brincadeira mesmo quando medievalizam, como sucede nessa narrativa de Sérgio Mudado.

Não é estranho que isso aconteça. Houve uma Idade Média dos românticos, que se reavivou no século XIX na Inglaterra, na França e na Alemanha. E houve antes a Idade Média ficta dos romances de cavalaria, que Cervantes parodiou no Dom Quixote, dando-nos nesse romance de romances, como demonstrou Miguel de Unamuno, uma exemplar história moral e espiritual. No século XX, O Barão partido ao meio e O Cavaleiro Inexistente, de Ítalo Calvino, são parodísticas, graças à mistura do cômico ao fantástico nas aventuras medievalescas descritas.

Essa mistura marca a imitatio parodística da Cavalaria em Vassallu – a saga de um cavaleiro medieval, por meio do longo depoimento oral prestado ao chefe das Cruzadas, Godofredo de Bulhão, pelo narrador, o Ruivo, ao mesmo tempo médico e assistente militar dos guerreiros a que serve durante a época das Cruzadas.

Como narrador dessa saga, o Ruivo ladeia o Riobaldo de Grande sertão: veredas, na obsessão pelo Diabo, como principal agente dos conflitos experimentados pelos personagens. Põe-se ele na rinha dos combates, senhores contra vassalos. Os contendores, entre sentimentos violentos de amor voluptuoso e ódio cruento, perturbam a diferença por eles encarnada entre o Bem e o Mal, passando, incessantemente, de um a outro pólo. Caçam-se entre si. Caça o violento Hariulf sua desejada Teodora, e caça o marido dela, que lhe concedeu o jus primae nocte.

O tempo histórico das Cruzadas, no qual isso se passa, torna-se irreal, como irreal o espaço das proezas narradas, que não pertencem a lugar nenhum. Guimarães Rosa medievalizou o Sertão da língua portuguesa, Sérgio Mudado sertaniza uma Idade Média temática.

O efeito parodístico de Vassallu: a saga de um cavaleiro medieval, é extremamente crítico. A fábula implícita a essa saga inverte a moralidade cristã, traspassando o Bem e o Mal. Quem é que então vige, Deus ou o Diabo? A pergunta coincide com a de Riobaldo. Mas a resposta do Ruivo é taxativa: o Diabo teria envenenado Deus por intermédio do homem.

À luz da acerba ironia dessa resposta, tudo quanto ocorre – o heroísmo guerreiro, a piedade religiosa e a paixão amorosa – é, ao mesmo tempo, humano e perverso. Converte-se a fábula numa gesta enganosa, numa história burlesca e, enfim, numa farsa trágica, que, diabolicamente entrosadas, põem do avesso o homem no mundo.



Escrito por xico santos às 13h50
[] [envie esta mensagem
]



 
  [ Ver arquivos anteriores ]