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vassallu
 


Vassallu – uma história atual de novecentos anos.

Por Ruy Flávio de Oliveira

Quando ouvi falar pela primeira vez de “Vassallu, a saga de um cavaleiro medieval”, o mesmo ainda era um manuscrito inédito nas mãos de meu amigo Xico Santos –, cabeça, tronco e membros da editora Altana, e descendente espiritual do próprio Dom Quixote se levarmos em conta o esforço que empreende em sua vida de pequeno editor em nosso país.

Poucas vezes – se é que houve alguma – eu havia visto tanta empolgação no Xico. Uma saga medieval que se iniciava na França e terminava na Jerusalém conquistada pelos cruzados. Uma viagem às lutas internas de um cavaleiro – seus medos, suas ambições, suas crenças e paixões, tudo regado ao sempre intrigante tempero medieval, época cada vez mais fantástica à medida que temporalmente nos afastamos dela.

Não ouvi quase nada depois da palavra “medieval”, tamanha a paixão que nutro pelo assunto. Passei a sonhar com o livro, a encher o saco do Xico por notícias do mesmo e a invejar secretamente o autor, por tão boa idéia literária. Reli várias obras sobre o assunto, e perdi a conta do tanto que ouvi minha modesta coleção musical da época, sempre antecipando o que a Altana nos proporcionaria. Cheguei a ficar com medo de uma descrição pobre do período, daquelas do tipo que a Disney faz em seus desenhos.

Bem, para encurtar a história e chegar logo a um esboço de análise, resisti à tortura da espera, e fui premiado com uma obra de rara beleza. Não que o livro seja poético, pois não é. A Idade Média não é poética, e o livro não teria como ser. O livro é belo pela descrição fiel que faz de uma época fundamental para o desenvolvimento de nossa civilização. Sérgio Mudado, o autor, captou o espírito daqueles mil anos nos meros quatro que fazem parte de seu relato.

O que segue nos próximos parágrafos é uma pequena análise do texto. Não pretendo que seja uma análise completa, mas sim uma tentativa de avaliar alguns aspectos que o contrapõem aos nossos tempos.



Escrito por xico santos às 13h51
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Continuação...

 

Para começar, vou apelar para a Bíblia, que sempre fornece de duas uma: inspiração ou desculpa para a falta de inspiração. Aliás, não tenho a menor intenção de me esconder atrás da primeira opção.


No capítulo 20 do Apocalipse de João vemos um trecho interessante que transcrevo abaixo, da tradução para o português, do Padre Almeida (edição fiel e corrigida):

"E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos. E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo. E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos. E, acabando-se os mil anos, Satanás será solto da sua prisão, e sairá a enganar as nações que estão sobre os quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do mar, para as ajuntar em batalha. E subiram sobre a largura da terra, e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada; e de Deus desceu fogo, do céu, e os devorou."


Escrito por xico santos às 13h49
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Continuação...

Este trecho compreende os versículos de 1 a 9 e é desnecessário comentar sobre o hermetismo de seu conteúdo (como, de resto, é o caso de todo o Apocalipse).

Uma das várias interpretações que já surgiram para este texto, proveniente de uma visão reencarnacionista, explica a passagem de uma forma bastante interessante. Vejamos se consigo expressá-la nas linhas que se seguem.

Para que a mensagem do Cristo pudesse florescer sem ser sufocada pela iniqüidade reinante no mundo no período inicial da era cristã, os prelados de Deus a cargo da evolução de nosso planeta açambarcaram o principal contingente dos espíritos ignorantes (leia-se maus) que por aqui grassavam, e o exilou temporariamente em uma região onde não poderiam interferir negativamente no curso dos acontecimentos. O exílio temporário desta massa de espíritos inferiores (o dragão, a antiga serpente, o Diabo, Satanás) de forma alguma transformou a Terra em um paraíso livre do mal, mas sim, reduziu ligeiramente a influência da ignorância no curso evolutivo da humanidade enquanto durou. Desta forma, durante o primeiro milênio após a vinda do Cristo, o planeta – temporária e artificialmente – mais propício ao gérmen cristão, viu o surgimento e o crescimento da mensagem cristã, não sem percalços, claro, mas certamente de forma mais segura. Argumenta-se inclusive que se não fosse por este mecanismo, a mensagem cristã teria se perdido pouco tempo depois de sua germinação inicial.

Ocorre que, passados os mil anos de exílio tidos como necessários pela espiritualidade superior para o estabelecimento da doutrina cristã (em que pesem as inserções e alterações provenientes dos concílios católicos que também ocorreram no período), os espíritos temporariamente exilados deveriam retomar seus processos evolutivos, voltando a passar pelas inúmeras encarnações necessárias à sua depuração. Recalcitrantes em seu ódio e ignorância, fizeram votos de, quando de seu retorno à crosta, lançar fogo sobre a Terra.


Escrito por xico santos às 13h48
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Continuação...

O retorno de Satanás seria, segundo esta interpretação, uma retomada das reencarnações destes espíritos ignorantes, incapazes de compreender a essência pacífica da mensagem cristã e, imbuídos de propósitos de conquista, se lançaram às Cruzadas como forma de extravasar sua sanha.

A interpretação acima, ainda que possa contrariar crenças e opiniões (o que de forma alguma é objetivo deste texto), vai de encontro aos acontecimentos narrados em Vassallu, pois o que se vê com maior clareza nesta obra é o movimento dos ditos "exércitos de Cristo" desde sua formação até a conquista de Jerusalém em agosto de 1099.

O frêmito assassino das hostes designadas pelo papa Urbano II para a conquista é narrado com entusiasmo e verve pelo Ruivo, que busca responder ao processo inquisitório que seu amo, o cavaleiro Ybert de Troyes se vê envolvido post mortem.

Quando dei início à leitura de Vassallu, inconscientemente guiado pelo subtítulo da obra (a saga de um cavaleiro medieval), esperava que o tema da primeira Cruzada fosse pano de fundo para o desenrolar da história do miles em questão. Contudo, esta é mais uma das aparências que enganam no decorrer da leitura. Em Vassallu há várias narrativas, descrições e digressões, sempre pertinentes aos périplos de Ybert, porém todas servindo de pano de fundo para a verdadeira linha mestra do livro: a marcha incessante e avassaladora dos cruzados, em direção a Jerusalém.


Escrito por xico santos às 13h47
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Continuação...

Personagens mais que conhecidas deste período, tais como Godefroi de Bouillon, Raymond de Saint-Gilles, Bohémond de Tarento, Adhémar de Puy, Aléxis Comneno são apresentados sempre com as cores frias, e calculistas do Ruivo, o narrador em segunda pessoa desta saga, de forma que os sentimos próximos e vivos. Farejamos a desagradável cabeleira desgrenhada de Saint-Gilles; imantamo-nos em sua fé desmedida; buscamos distância de sua ira religiosa e de suas desconfianças políticas. Alexis nos assombra com sua perspicácia; sua língua metaforicamente bifurcada nos causa calafrios. Abismamo-nos com a ganância desmedida de Bohémond, mas insistimos em seguir-lhe os passos, o que no mais das vezes revela algo sobre nós mesmos.

Acompanhamos as ações destes ícones históricos não como se fossem acontecimentos de quase um milênio atrás, mas sim com a mesma proximidade de algum dos conflitos atuais que se desenrolam no planeta. A crônica impetuosa e apaixonada do Ruivo substitui o discurso plástico e ensaiado dos repórteres da CNN, e as imagens que ele nos suscita à imaginação são mais claras e coloridas que as providas pelas câmeras de televisão. O sangue narrado pelo Ruivo é mais vermelho, bem mais presente e muito menos asséptico. As ações dos cruzados são mais reais, apesar da gigantesca carga de violência e insensatez que as direcionam. E nos questionamos se as páginas em nossas mãos são realmente obra literária, mero devaneio sobre fatos já há muito dispensados da atenção da humanidade, ou realidade mais que incômoda, a nos assombrar desde tempos imemoriais. Nossa moralidade, nossa filosofia, nosso racionalismo existem apara além das páginas e intenções que os descrevem? Nosso espanto com os antepassados medievais vai além da autocrítica tardia?


Escrito por xico santos às 13h46
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Continuação...

Aliás, seguindo esse mesmo raciocínio, se em tempos recentes nos impressionamos com as várias violações da Convenção de Genebra com civis e prisioneiros (de ambos os lados) nos conflitos das duas Grandes Guerras, das guerras da Coréia, Vietnam, Bósnia, Iraque e tantos outros, fica difícil descrever com precisão os sentimentos que nos assomam diante dos ocorridos espúrios que já vinham se sucedendo desde a travessia do vale do Danúbio, passando pela carnificina de Antioquia até culminar com os eventos animalescos de Maara e Jerusalém.

Diante dos fatos tão habilmente narrados, não é de se espantar que comparações surjam entre as épocas passada e presente. Não é difícil perceber, a conexão profunda entre o anti-semitismo que proporcionou os massacres de Straubing (e tantos e tantos e tantos outros na mesma época), e o suplício imposto aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Fica aparente a ligação entre os conflitos religiosos entre muçulmanos e cristãos que permeiam a história da humanidade em todas as épocas. As barbáries medievais são inapelavelmente comparadas a seus pares contemporâneos, e não conseguimos escapar à questão que tem consumido os historiadores desde sabe-se lá quanto tempo: depois de mais de sete mil anos de história registrada, continuamos tão bárbaros quanto nossos ancestrais que primeiro aprenderam a escrever? Sim, por que de que forma as barbaridades de Abu-Ghraib se diferenciam de nossa perversidade medieval, além do finíssimo verniz de falsa civilidade que adotamos desde então?


Escrito por xico santos às 13h45
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Continuação...

A humanidade acusava, naqueles tempos tão longínquos, os judeus de torturas e maquinações contra a cristandade – sem quaisquer indícios que corroborassem sua suposta veracidade, diga-se de passagem. De que forma aqueles absurdos diferem da disseminação dos perniciosos e absolutamente falsos Protocolos dos Sábios de Sião, fraude russa do início do século XX que tanta lenha anti-semita colocou na fogueira nazista que culminou com os campos de concentração? Em menos de dez minutos de averiguação responsável podemos verificar que este pernicioso texto ainda é tomado à guisa de verdade irrefutável por neonazistas e extremistas de vários matizes.

Os mais entusiasmados com os noticiosos sensacionalistas de hoje em dia certamente encontrarão nas narrativas do Ruivo (bem como nos vários documentos históricos em que as mesmas se baseiam) a prova cabal de que o que nos separa de nossos pares medievais nada mais é do que, a tecnologia desenvolvida, e os artifícios legais destilados e reciclados desde então, nada mais refletindo que as necessidades e preconceitos do momento que vivemos. Quaisquer pretensos progressos que tenhamos galgado nesse último milênio serão peremptoriamente negados pela semelhança inapelável das barbáries de ambas as épocas.



Escrito por xico santos às 13h43
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Conclusão...

É importante ressaltar, porém, que Vassallu não tem a pretensão de responder aos questionamentos levantados acima. Não, o Ruivo tem intenções bem diversas desta. Seu relato – mesclado por suas crenças e experiências – atende, para os que neste narrador depositam confiança, ao chamado do próprio regente de Jerusalém após a conquista cristã, Godefroi de Bouillon. O nobre advocatus pretende decidir sobre o possível endemoninhamento do cavaleiro Ybert, por mais que tal tarefa possa nos parecer fútil após a morte do mesmo. É importante que não nos esqueçamos que as ações do século XI não eram – nem de longe – guiadas pelo pretenso racionalismo tão fundamental à nossa era.

A título de responder à questão central do suposto endemoninhamento de Ybert, o Ruivo tece sua longa narrativa, propositalmente sinuosa e recheada de enredos paralelos, que mais parecem servir a seu próprio ego que prestar informações sobre o processo. O Ruivo exulta com suas maquinações e planos escusos. Ele falsamente se humilha diante dos poderosos, enquanto secretamente os manipula, seduz, direciona. Age como catalisador dos acontecimentos, e está sempre à altura dos mesmos. Aliás, como era de se esperar.

“Vassallu” é uma viagem no tempo que nos leva ao cerne dos problemas que nos afligem hoje, por mais paradoxal que esta afirmação possa parecer. E o Ruivo nem está tão longe assim, argumentariam alguns...



Escrito por xico santos às 13h39
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Uma fábula perversa na idade média

Por Claudinei Vieira

“Vassallu” é uma deliciosa saga das contradições e conflitos do ser humano, perdido entre suas crenças e devoções em mundos que se apresentam descoloridos e violentos. É uma fábula, pois através de um enredo simples de amores e paixões violentas, de justas entre cavaleiros, e descrições minuciosas do cotidiano em um passado já um tanto distante, não deixa por isso de conter uma profunda reflexão sobre temas que nos afetam ainda hoje e de modo tão decisivo: a luxúria, a ganância, a honra (ou falta de), a religiosidade (ou falta de), as guerras, as dores, o misticismo prosaico, o fanatismo (religioso, econômico), o fascínio pelo poder, a abnegação.

A história é simples: narra o crescimento e desenvolvimento do jovem cavaleiro Ybert de Troyes que com sua bravura e destemor ajudou os cruzados a conquistar e ocupar finalmente Jerusalém, expulsando (e matando, saqueando, estuprando) os infiéis muçulmanos. A batalha que durara vários anos e havia empolgado massas da população cristã, entre poderosos e os infelizes, camponeses, miseráveis e reis, cegos  de determinação religiosa ou ávidos pelos despojos, acabara. Algo de muito estranho, porém, havia acontecido: Ybert mata alguns cristãos!, que entre os escombros da cidade, no meio do sangue e do fogo, tinham tomado um bebê das mãos da mãe muçulmana e o esmigalhado na parede, e estavam prestes a estupra-la. Ele salva uma infiel!, desaparece durante a noite e é encontrado somente no dia seguinte, morto.

A pergunta colocada aos chefes da ocupação, dirigidos por Godefroi de Bouillon é se Ybert de Troyes fora possuído pelo demônio e, por conta disso, matara seus companheiros de luta. O inquérito é instaurado e a testemunha-chave é convocada, o médico, misto de sábio e espertalhão, conselheiro e companheiro de Ybert (e anteriormente de seu pai) que nunca é nomeado e é conhecido somente por Ruivo.

O livro é, portanto, a fala e a narração do Ruivo que conta a história pedida, mas ao seu modo. Falastrão, digressivo, especulativo, conhecedor de várias línguas e de uma mixórdia de conhecimentos esparsos acumulados em recantos os mais variados e por um mestre judeu, o Ruivo conduz a narrativa do seu modo: o que não viu pessoalmente, especula; e o que não sabe, o mais provável é que invente, embora nunca possamos distinguir entre a fábula, o incenso e a realidade. Sua lábia é aliciadora, cúmplice, muitas vezes irônica, cáustica, provocadora, cínica e dessacralizadora, quase herética, mas sem nunca alcançar o desrespeito. Simultaneamente submissa e revoltada, esperta e reacionária, sua voz comenta, induz, alfineta os poderosos, briga com o monge copista que transcreve sua fala (e tanto faz e fala que consegue comprová-lo um espião e inimigo), critica os reis, desnuda os religiosos, discute com o próprio Godefroi de Bouillon (para logo depois e de novo conclama-lo poderoso pela conquista de Jerusalém). Mais do que qualquer outro personagem do livro (entre fictícios e reais, pois que se misturam o tempo todo), o Ruivo é a personalidade e figura principal, e uma das mais instigantes e fascinantes de nossa literatura moderna.

- Não ouviste as palavras bíblicas proferidas pelo louco? O que é já foi; e o que há de ser também já foi. Não existe passado, nem futuro. Os antigos sábios gregos já o sabiam...

- Ora, Ruivo, estás a brincar com palavras!

- Não! Põe tento a isso, cavaleiro! O tempo que foi não é mais – e o que vai ser ainda não é! Então essas partes do tempo, umas passadas e outras futuras, simplesmente não existem! [...] Estou apenas repetindo Agostinho! Se o passado não é mais, e o futuro ainda não é, somente resta o presente. E se o próprio presente fosse sempre o presente, sem perder-se no passado, ou encaminhar-se para o não-ser do futuro, prorrogando-se infinitamente, constituir-se-ia na eternidade. E o que buscam os que temem a morte, senão a eternidade?

- Pela Virgem Santíssima! – disse Ybert, batendo uma palma – Deparo-me com um segundo louco em apenas uma noite! Por acaso também não és dado a fazer leituras nos astros? Se bem te entendi, não existindo o futuro, também não haverá a grande guerra anunciada pelas estrelas.

- O tempo, meu senhor, não existe por si mesmo, mas pelos acontecimentos! E, dentre estes, a guerra é a mãe e a rainha! E a única que traz as mudanças, criando os espaços pelos quais o tempo é capaz de fluir, de existir...



Escrito por xico santos às 13h31
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Continuação...

O tempo segue como um dos eixos pelo livro, o como se manifesta e como afeta a vida dos seres humanos e suas visões de acontecimentos futuros. Aos poucos, Ruivo vai demonstrando uma visão cínica (elaborada cuidadosamente, por certo), sem chegar ä conclusões. E, obviamente, o Diabo, suas manifestações, sua presença ou não, sua influencia e poder, ou ao contrário, sua ausência e conseqüente responsabilização dos seres humanos pelas suas próprias ações, constitui boa parte da fala e das digressões do Ruivo. E fundamental, pois que será a definição da pena sobre Ybert, mas não tão somente: é a justificativa e/ou a desculpa para todo o momento pelo qual passam, é a justificativa e a razão de tudo o que estão fazendo, do tratamento aos camponeses e às mulheres e ao senhores e seus vassalos, e a razão e/ou desculpa para o próprio movimento dos cavaleiros, das cruzadas, e da tomada de Jerusalém.

Fábula, sim, pois apesar de conter tantas informações fatuais das batalhas, da vida comum e comezinha da época, das cerimônias e dos códigos de honra dos cavaleiros (demonstrando o esforço de pesquisa do autor), o distanciamento é medido e consciente. Não estamos em face de um livro-documentário ou historiográfico, mas de uma narrativa ao estilo das histórias das Mil e Uma noites (com um feio ruivo, sem orelhas e com os olhos em constante estado de avermelhamento, em lugar de uma Sherazade...), com os mesmos propósitos moralisticos e definidores das fábulas.

E é daí que provém a tal perversidade. Pois se moral existe em “Vassallu” (não sei se perseguida pelo autor, mas está sim presente), ela no entanto é problematizada, discutida e relativizada e nada fácil de ser apreendida. O Mal ou o Bem são reais, porém indefiníveis. Subterfúgios do Demônio ou incapacidade do Ser Humano? O Ruivo tem suas respostas, mas como confiar neste narrador escorregadio e onipresente? Fábula maniqueísta, onde os opostos ficam se cruzando.

Pois maniqueista, porem nunca simplista. Proeza realizada pela escrita segura e muito firme de Sérgio Mudado que consegue manter o tom sóbrio e tranqüilo durante todas as suas páginas, ao descrever a sagração de um cavaleiro, o nascimento de um messias, ou o massacre de uma cidade inteira. Também admirável é o modo como mescla a linguagem sem nunca descambar para um formalismo antiquado ou um popularismo atualizante e a leitura flui, fácil e gostosa, com capítulos curtos e certeiros.

Sérgio Mudado é medico e teve sua atenção despertada para o tema quando soube da prática de cavaleiros medievais de carregarem consigo vasos de alabastro para que, caso morressem em combate em terras distantes, seus corpos fossem fervidos e encerrados no vaso para serem transportados até poderem ser enterrados em solo natal. Esta história o fascinou de tal modo que o incitou a pesquisar mais e sentir que poderia escrever sobre isso.

Este fascínio foi nos transmitido de modo adequado. “Vassallu” produz aquela agradável e estranha sensação de, ao mesmo tempo, querer terminar logo de ler para sabermos afinal como vai acabar, e desespero porque vai acabar. E infelizmente uma hora o livro termina.



Escrito por xico santos às 13h28
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