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vassallu
 


VASSALLU NO CAFÉ LITERÁRIO DO JB ONLINE

Deus e o Diabo na Terra da Fé

por Glaucia Lewicki

Vassallu (2006)
Sérgio Mudado
Editora Altana

Em uma noite quente de agosto do ano de 1099, no calor da invasão e da pilhagem das ruas de Jerusalém pelos cristãos, o cavaleiro Ybert de Troyes investiu contra um companheiro, fendendo seu crânio, em um só golpe de espada, do cimo da cabeça aos dentes. Estaria Ybert possuído pelo Demônio?

É a partir dessa pergunta que Vassallu apresenta, através de um meticuloso trabalho de pesquisa, desdobrado em uma narrativa prodigiosa, um relato fictício a um personagem real, o cruzado Godefroi de Bouillon, “libertador de Jerusalém”. O narrador, conhecido apenas como o Ruivo, é uma espécie de médico e conselheiro militar. Através de sua voz, o leitor é apresentado à saga do cavaleiro Ybert, desde seu nascimento até sua morte.

A narrativa é entremeada por descrições acuradas dos costumes medievais e divagações de cunho filosófico, alinhavada por uma trágica história de amor. Buscando uma atmosfera de narrativa antiga, a linguagem utilizada é um pouco rebuscada, mas fluente, não oferecendo maiores problemas aos leitores acostumados a histórias passadas na chamada Idade das Trevas. A divisão dos capítulos em episódios curtos, que emendam-se uns nos outros como uma rica tapeçaria, reforça a atmosfera medieval do livro, formada por um quê de narrativas européias a la Chrétien de Troyes e de contos árabes do ciclo de “As Mil e Uma Noites”.

O projeto gráfico é belíssimo, acertado desde a escolha do formato do livro, do dourado da capa e das fontes utilizadas. O detalhe da silhueta de um cavaleiro no prólogo, sob o texto, reforça a sensação acertada de que o leitor está diante de uma grande história.

A trágica sorte do herói Ybert de Troyes começa quando o pérfido barão Hariulf, senhor feudal de quem seu pai, o cavaleiro Bernard, era vassalo, faz valer seu “droit de seigneur”. Hariulf, seguindo o costume da época, reclama a primeira vez da noiva, a bela Théodore, para si. Preso por laços de vassalagem ao barão, Bernard nada pode fazer, a não ser aguardar, do lado de fora, que a primeira noite de sua mulher se consuma com outro que não ele. As conseqüências dessa noite infeliz se fazem sentir por todo o curto casamento de Bernard e Théodore, uma vez que suas lembranças foram gravadas, para sempre, em Ybert, o primogênito bastardo. O garoto possui os olhos e, mais tarde, acredita-se, também o comportamento quase demoníaco de Hariulf.

Partindo desse acontecimento instigante, a história vai ganhando ritmo, acompanhando os desdobramentos do tributo pago por Bernard a seu senhor. As considerações do narrador sobre o tempo e a natureza do homem também crescem, numa trama onde todos, na verdade, são vassalos, seja de um senhor feudal, de Deus, do Diabo ou de si mesmos, da maldade intrínseca dos seres humanos, capaz de assustar o próprio Satanás. A propósito, o cavaleiro cristão cuja cabeça Ybert de Troyes fendeu do cimo aos dentes, logo na primeira página, havia acabado de esmigalhar contra a parede um bebê, e estava prestes a atravessar a mãe, uma das ditas “infiéis”, com sua espada. Onde estava Deus e onde estava o Diabo naqueles tempos, na Terra da Fé? Onde eles estão hoje?

Onde está o homem; talvez seja essa a resposta da questão presente em toda a narrativa. Em uma conclusão que flerta com o Renascimento, o narrador de Vassallu reconhece o peso do humano na trajetória do homem na terra, minimizando a influência do divino e do sobrenatural. É o próprio homem que está presente na maldade que permeia suas ações. Atos plenos de paixão e violência não podem, no final das contas, ser atribuídos a outros que não a nós mesmos. O próprio narrador, cuja aparência física evoca a noção de demônio na era medieval, foi quem fez girar algumas das engrenagens mais maléficas da trama, catapultando longe os desejos e ações mais pérfidas de seu senhor Hariulf, através de seus conselhos ardilosos. “Como médico, eu gosto de especular sobre o sentimento e as sensações das pessoas, sire.”, diz o personagem. E usá-los também, poderia acrescentar-se.

Como médico, o autor Sérgio Mudado também gosta, como seu narrador, de especular sobre o sentimento e as sensações das pessoas, sabendo usar suas especulações para criar uma bela história. Provando que a imaginação não conhece barreiras, ele assina embaixo de um livro que não se deixa aprisionar pela quase obrigação de produzir textos de cunho regionalista/nacional para obter uma obra considerada de qualidade. Mesmo lembrando que, se quisermos ser universais, devemos falar de nossa aldeia, é prazeroso, de vez em quando, deixar a mente vagar na aldeia dos outros, desafiando o tempo e invadindo, com muita propriedade, outros espaços.

 



Escrito por xico santos às 09h11
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Revista UMA de abril

Sônia Nascimento

A contenda do bem contra o mal
Em Vassallu - a saga de um cavaleiro medieval (Altana, 456 págs, R$ 54), o médico mineiro Sergio Mudado cria um interessante romance que se passa no ano de 1099. Na forma de um longo depoimento oral prestado ao chefe das Cruzadas, o narrador, conhecido apenas como Ruivo - uma espécie de médico e conselheiro militar -, conta a saga do cavaleiro Ybert, desde seu nascimento até a morte. Ruivo é inspirado no Riobaldo, de Guimarães Rosa, em Grande sertão - veredas, no que toca à sua obsessão pelo Diabo, como sujeito principal das angústias vividas pelos personagens. À pergunta já feita por Riobaldo: "Quem é que então vige?", a resposta de Ruivo é clara: "O Diabo teria envenenado Deus por intermédio do homem". Tal batalha do bem contra o mal permeia toda essa obra intrigante.



Escrito por xico santos às 12h34
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