Uma caixa de Pandora e sua pérola escondida
Edith Piza
ppi@uol.com.br
Acabo de ler Vassallu, de Sérgio Mudado.
Não posso traduzir, ainda, todo o impacto deste romance sobre mim, porque Vassallu foi criado para ser refletido e madurado na mente e no coração do leitor. Entretanto, há coisas que não querem calar:
Impressionou-me primeiramente o narrador. Que belo narrador! É e, ao mesmo tempo não parece ser, onisciente; igualmente é, e não parece ser, onipresente. Narra a história em primeira pessoa, para um príncipe; e preocupa-se em ser fiel aos fatos. Tudo que sabe (e sabe de tudo) testemunhou; aquilo de que não foi testemunha faz com que se acredite que tenha deduzido logicamente. É ele a personagem que nos guia para todo canto, para o interior de outros personagens, para dentro daquele mundo, daquele tempo, daquelas histórias de seres humanos, de suas virtudes e paixões, de seus duplos e seus fantasmas. Não há como não segui-lo e sempre esperar por mais. Seu prazer, e ele não esconde, é intrigar, espionar e assistir as conseqüências trágicas de suas táticas. Busca conhecimento sobre tudo, como quem busca água no deserto. Conhecimento que dá poder, para manejar o destino do mundo e dos homens. Incansavelmente curioso, lê tanto nas estrelas, como nas entrelinhas das almas que cativa, ou das que ameaça.
E aí, vem a segunda impressão. Certamente estamos diante da antiga luta entre o Bem e o Mal, como outros apontaram. Entretanto, pressinto que o que se passa em Vassallu é uma história sobre a construção do Mal. Como construtores do mundo, temos o poder de nomear seres e coisas. Uma vez nomeado o ser, ou o objeto, ele ganha as dimensões que lhe dermos. Bem e Mal não estão nos seres e nas coisas, mas naquilo que o conjunto mais poderoso da sociedade nomear como do Bem ou do Mal. Nada, neste romance é, em si, absoluto e nada, nem ninguém, tem apenas duas faces. Talvez por isso os personagens sejam marcados pelo signo da ambigüidade. Não se pode resolvê-los pelo simples apelo a um Bem absoluto contra um Mal absoluto. Nada se supera; tudo convive. Também Deus e o Diabo; eles igualmente ambíguos, (re)construídos a cada época, na boca dos homens. Aquilo que se comete com ferocidade de demônios é o que o “deus” – (re)inventado por aqueles que o colocam como fiador de suas crueldades - espera e abençoa.
Sob a capa da fé e do temor a Deus, o discurso do narrador deixa transparecer uma intrigante e lúcida descrença, no interior da qual todo bem e todo mal é possível, porque é humano. Mas, não ético (e a ética é também construção). A ética serve para alguns, mas não para outros. Os fanáticos, os gananciosos, os ávidos de poder desconhecem-na propositadamente, ou a invertem. Para estes, Deus tem muitos nomes e nenhum é sagrado. E o Diabo? Ao diabo com ele! Que nos sirva de testemunha!
Em fim, ler Vassallu é como entrar na espiral da História e se encontrar em alguma volta, onde passado e presente se defrontam, como universos paralelos. Tudo nos parece muito distante e muito próximo. Como diria o narrador: Uh! Não e não, sire, não é mera coincidência.
Escrito por xico santos às 09h29
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Rubenildo P. Barros / Data: 26/3/2006 Conceito do leitor:     A idade média é aqui e agora! - Vassalu é mais um romance ambientado na idade média, mas nào apenas isso. É muito fácil escrever um romance histórico em que a geografia e própria história sejam as atrizes. Seria op caso de se perder em longas descrições. Vassalu foge desse tipo de enfoque, ao mergulhar profundamente nas motivações de seus personagens. Insere-se naquela gama de obras que, mesmo espalhadas num espaço geográfico apreciável, explora, mais profundamente, o espaço interior, o ||innner space|| a que J. G. Ballard se referia, para extrair a força do ator principal, a figura humana, trágica, presa de seus próprios anseios, desejos, vítima de todo um contexto social e de si mesmo. É um romance muito bem escrito, ágil, mas profundo. Recomendado com empenho. |
Escrito por xico santos às 14h47
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Ruy Flávio de Oliveira / Data: 13/3/2006 Conceito do leitor:     Uma obra bárbara em todos os sentidos - ||Vassallu - a saga de um cavaleiro medieval|| combina vários elementos que muito me interessam: os costumes da Idade Média, as Cruzadas, a narrativa em segunda pessoa, o tempo e o Diabo, não necessariamente nessa ordem. O caminho para a primeira Cruzada e o inquérito sobre o possível endemoninhamento de Ybert de Troyes, cavaleiro e cruzado, se revezam como foco principal e pano de fundo nesta narrativa empolgante. E somos convidados a participar da jornada, acompanhando os ||exércitos de Cristo|| e a assistir em technicolor o desenrolar da saga. A Idade Média, com suas idiossincrasias religiosas, políticas e sociais, se descortina com impressionante realismo diante de nossos olhos. E observando ocorridos tão antigos, mas tão congruentes com nossa estupidez contemporânea, nos perguntamos o que nossa civilização galgou de concreto nos novecentos anos que nos separam daquela época. Um detalhe #não tão pequeno assim## é que o Ruivo, o narrador e personagem supostamente secundária no livro, mantém-se fiel à sua natureza e influencia o quanto pode o rumo dos acontecimentos, contribuindo sobremaneira para a história e para a História. Suas artes, tão antigas quanto a memória da Humanidade, são brutalmente decisivas apesar de sua falsa modéstia.||Especular|| é um verbo que ganha novas dimensões dentro de seu discurso, e jamais vai ser usado por mim da mesma maneira. Como me disse o próprio Xico Santos, editor dessa brilhante obra - não de todo inebriado pela paixão que nutre pelo livro -, o Ruivo se aproxima de Riobaldo no rol das grandes personagens da literatura brasileira. Aliás, ainda neste mérito, é interessante observar que médicos mineiros escrevendo sagas com o Diabo como motivador, geralmente conseguem resultados bastante satisfatórios #guardadas, obviamente, as devidas proporções##. Minha sugestão: pare o que você está fazendo, compre Vassallu e leia. Agora.
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Escrito por xico santos às 14h47
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Adriana Gragnani / Data: 23/1/2006 Conceito do leitor:     A consciência pela literatura - Numa primorosa edição, prefaciada por Benedito Nunes, Vassallu propicia, em linguagem refinada, um romance sobre a saga de um cavaleiro medieval, atormentado pela solidão. Livro atualíssimo, instiga a reflexão do sentido da religião, como entidades que disputam o ser humano, tornando seu mundo escuro e vago, levando-o a titubear entre a fé e a morte, em que tipo de fé e que espaço de vida. Romance histórico, nele transborda a luta pelo poder, e o envolvimento das pessoas, de forma viceral, em projetos de vida, sobre os quais desconhecem a dimensão que pode alcançar. Se a literatura é forma de aquisição de consciência política, eis aí um livro a ser lido, pela riqueza de dados e reflexões que desperta em quem o lê. |
Escrito por xico santos às 14h46
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Marine / Data: 28/1/2006 Conceito do leitor:     Historia e Emoção - Os personagens tem estilo, a escrita é elegante, o fascínio da leitura de ficção baseada em História do ser humano nos transporta, e envolve na atmosfera; Houve momentos que cheguei a sentir medo...como se estivesse vivendo o que lia. Livro de não largar!!! |
Escrito por xico santos às 14h30
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Renata Prado / Data: 22/1/2006
A beleza de Vassallu é completa - Vassallu é um livro fantástico em todos os sentidos. Sem considerar os outros elementos do livro, e me referindo estritamente a história do cavaleiro Ybert, assim como sua interação com os demais personagens, é impossível não notar que se trata de uma história instigante e bela. Ao misturar amor, morte, fé e ambição, a narração toca a alma, e torna-se, como uma obra de Sheakspeare, atemporal, universal e eterna. O livro não conta somente com uma boa história – afinal, muitas vezes não é a idéia de uma boa história, e sim a maneira como o autor a escreve que conquista o leitor e transforma a boa história em uma grande obra. E também nisso, Vassallu está impecável. Antes de mais nada, o livro está extremamente bem escrito. As frases foram construídas de uma forma tão bela, que muitas vezes me pegava relendo parágrafos apenas para me demorar mais no prazer de lê-las. Além disso, a narrativa do Ruivo é simplesmente deliciosa. O modo como ele descreve os acontecimentos, sua irresistível tendência a especulação, e ainda suas dissertações filosóficas #as narrativas sobre o tempo são maravilhosas## fazem com que o leitor se envolva, admire e acabe por se apaixonar por esse personagem, não mais se importando com sua aparência grotesca ou com sua facinação por sanguinolentos combates corporais. E como médica, é também preciso mencionar que ler as descrições de doenças e dos tratamentos medievais foram, para mim, um prazer à parte. Finalmente, entremeando a história, estão diversos pensamentos, filosofias e mensagens. E esses elementos, muitas vezes colocados com elegante sutileza no meio da narrativa, não podem passar despercebidos, nem sem serem comentados, por que enriquecem o livro de tal forma que o torna não mais um livro, mas uma obra prima. E, devido ao enorme prazer em ler Vassallu, estava lendo-o devagar, saboreando os parágrafos, economizando as páginas. Mas ao mesmo tempo, como não conseguia largá-lo, acabei, numa mistura de alegria e tristeza, chegando ao seu fim. Tristeza, devido a saudade da leitura tão prazerosa. E alegria, devido a sensação de orgulho que ficou. Orgulho da nossa literatura, do nosso idioma, dos nossos escritores. E orgulho da maneira mágica com que obras como essa rompem as nossas fronteiras e passam a pertencer, junto com as emoções que provocam em cada leitor, ao mundo.
Escrito por xico santos às 14h22
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vassallu - a saga
Agora os leitores de Vassallu - a saga de um cavaleiro medieval têm um espaço para suas considerações sobre o livro.
Escrito por xico santos às 13h00
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